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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A queijadinha

Um dia Estevão voltou bêbado de um coquetel no Pelourinho e acabou dormindo de terno italiano no sofá. Durante a madrugada teve um sonho incrível: ele era o 007, todo bonitão, com seu mesmo terno italiano, ele era o primeiro agente negro da história da MI6. Em seu sonho, ele combatia sozinho a mafia inteira, sem dificuldade para exterminar os mais de 37 capangas do Berlusconi, que surgiam de todos os cantos. Após a matança, caiu num casino, sem um pingo de sangue na roupa. Rapidamente ganhou 20 mil dólares no pôquer, saiu com a mais gostosa do lugar acelerando uma Porsche 968, mas na hora de comê-la, não tinha camisinha. Aquilo o deixou muito puto. Acordou no mesmo sofá, elegantemente amassado. 

Durante o dia começou a pensar na possibilidade de a roupa que ele dormiu, no caso o terno, ter influenciado o que ele sonhara. Era ridículo aquele pensamento, mas não custava tentar. Botou a empoeirada camisa da seleção da Copa de 70 e foi dormir.

Imediatamente lá estava ele, o estádio Azteca lotado, com a bola no pé, driblando um italiano narigudo. Ele era o Pelé, uma versão ainda melhor. Fez 17 gols, oito de bicicleta, quatro de voleio e cinco driblando os 10 jogadores do time. Até que num determinado lance, começou a afundar na grama, toda movediça, foi sendo engolido e para seu espanto ninguém fazia nada, ninguém percebia sua agonia, apenas o juiz que chegou bem perto dele e o tascou um cartão vermelho. Estevão acordou de sopetão, a camisa amarela pingando de suor. Apesar do susto, foi incrível, surreal, inacreditável, um sensação de que finalmente tinha encontrado seu propósito na vida.

Aquilo virou um vício. Todo dia Estevão alugava uma fantasia diferente e ia dormir. Algumas moças que Estevão levava em casa ficavam receosas quanto à sua sanidade, nunca tinham visto alguém transar loucamente e depois colocar uma fantasia do Peter Pan pra dormir. Teve uma delas, a Neide, que quando ele vestiu a roupa do Fred Flinstone chamou imediatamente o Samu. Mas Estevão não se importava.

Tudo passava bem até o dia em que ele resolveu pegar a fantasia de astronauta. Pousou com facilidade seu foguete na Lua, desceu a escadinha, nossa, que momento indescritível, ele era o primeiro homem a chegar tão longe, sentia-se literalmente um astro, grandioso, um verdadeiro herói, fincando a bandeira brasileira na terra cinza e seca da Lua. Sua vontade era ficar naquele sonho para sempre. Até que algo estranho aconteceu. Logo após fazer xixi atrás de uma rocha notou ao longe algo estranho, um pontinho branco. Seria uma pessoa?  Foi saltando, daquele jeito aquático, lunar, para poder ver de perto o que era aquilo. 

Quando chegou bem perto, seus olhos abriram em choque como os portões de uma espaçonave batendo em retirada. Não podia ser, era impossível, ficou por uns instantes em um estado de autismo, só observando aquela cena impossível. Ali, sentada numa mesa, estava ela, calma, resoluta: uma baiana do Candomblé, vendendo queijadinhas a R$5,00. Ele odiava queijadinhas. Naquele momento, percebeu a loucura do seu sonho e que era hora de acordar. Começou a se sacudir, e nada.  Beliscou o braço, nada. A baiana só olhando para ele, com aquela cara de dó, achando que moço tinha muita fome ou algum tipo de pulga espacial. Tentou gritar, deu pulos, jogou-se no chão, nada parecia tirá-lo dali. Derrotado, sentou-se a mesa ainda ofegante, a baiana olhava fundo dentro das suas pupilas. Viu sua nave partindo sem ele, nem teve forças para correr atrás, pensou apenas “merda”. Se viu ali, no espaço, praticamente sozinho naquela imensidão, naquela situação bizarra preso no espaço, dividindo sua glória com talvez a última pessoa que gostaria de estar na vida.

Acordou apenas 8 meses depois, com a barba longa, o corpo todo pelancudo, com um gosto doce de queijo na boca. Entrou no chuveiro, abriu o armário e foi certeiro no pijama de bolinhas. Pra não ter erro.