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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Monge e o Arroz Trufado


Há anos eu penso em montar um negócio para me deixar milionário. Se bobear, já faz uma década que gasto neurônios com isso e até agora nada. Nada. Meu cérebro simplesmente se recusa a fazer aquela maldita sinapse que falta para eu finalmente ter a tal ideia e desencanar de pensar em dinheiro e só desfrutar a vida como um perdulário onipotente.

Protejo meu cérebro do sol, uso boné, como frutas, verduras, até couve-flor eu encaro, corro, nado no mar, duas vezes por ano medito, trato meu cérebro melhor do que o Ozzy cuida hoje do fígado. E novamente, nada. Apenas o vazio, fundo branco infinito com sons de pássaros cantando ao fundo.

Em compensação, sou o rei para ter as idéias anti-empreendedoras. Sou o anti-Donald Trump, o anti-Richard Branson. Para você entender quão grave é a situação, comecei a imaginar se seria mesmo uma péssima empreitada abrir um mosteiro. Mas um feito para a "high society".

Um ambiente para quem já cansou do Hilton Nova York e quer experimentar algo novo para alma, mas sem perder a finesse. Não sei se você já teve a chance de visitar um mosteiro convencional, mas no geral, são lugares rústicos, feitos para quem quer rezar, observar o silêncio, comer arroz integral e dormir bem antes das intrigas dantescas da novela das oito.

A ideia é que fosse uma experiência gradativa porque não dá para você num dia comer no Parigi e no outro dar de cara com uma sopa de inhame. Então, ao invés de arroz integral sem sal, o arroz seria o de risoto, e trufado. Todo mundo que faz retiro sofre ao acordar às cinco da madrugada para meditar, no meu mosteiro, ninguém precisaria abrir o olho antes das nove e meia. Já viu um monge comendo croissant com blueberries? Lá você poderia.

E na hora de raspar os cabelos? Marco Antonio de Biaggi seria nosso funcionário aos finais de semana, claro, para deixar a careca dos praticantes na moda, mesmo que ninguém perceba muito bem qual a diferença de uma raspada comum.

Ao final do retiro, todo mundo passaria pela lojinha do mosteiro, para adquirir, à vista, seus itens imperdíveis: mantos vermelhos desenhados por Jean Paul Gaultier, livros do tipo "Meditando com Estilo" da Glória Kalil e aqueles colares para contar os mantras, mas não feitos de sementes de açaí, mas de pérolas.

Mas depois pensei melhor e receberia tantas críticas da comunidade religiosa, que desisti. Mas sabe, foi até bom, porque esses dias mesmo tive um visão, dessa vez muito clara, límpida, do que eu poderia fazer para me deixar rico de uma vez por todas: abrir uma churrascaria bovina em Nova Delhi. Agora vai.








2 comentários:

  1. Hahahaahahahahahha sensacional!! Mas acho que o mosteiro high society seguramente te faria milionário... pelo menos, tá na moda ser espiritualizado.

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