Convenhamos,
o ser humano é uma racinha que se fode. Desde o ator mais bem pago de
Hollywood, ao quase transparente Somaliano com suas costelas que mais parecem
ondas sonoras do grito da fome. Todos, em níveis diferentes, comemos o pão que
o diabo cagou, em alguns momentos da vida.
Com Orlando
não era diferente. Tinha um aura pesada de um sofredor profissional. Entristecia
quando ganhava e chorava quando perdia. Sua mente traquina o enrolava de tal
forma que conseguia ficar infeliz até quando era para dar cambalhotas de
alegria. Como da vez que ganhou uma promoção de uma marca de margarina para
passar uma final de semana no Caribe com a mulher. Tudo pago. Passou o tempo
todo reclamando da areia branca fervendo a sola dos pés, dos mosquitos canibais
e dos pratos exóticos, que, em sua cabeça, eram apenas coquetéis horizontais.
Apesar do jeito irritadiço, Orlando sabia que precisava mudar para diluir o
sofrimento.
Costumava dizer que só a pintura de Tolouse-Lautrec, “A mulher sentada no divã”,
tinha mais tempo que ele de terapia. Já
tinha tentado a Freudiana, Junguiana, Lacaniana, todas as “anas”, lançou-se na
Cabala, dançou Umbanda, meditou com mestres Budistas, Hinduístas, Xintoístas, confessou-se
com padre católico, benzeu-se na água evangélica, foi protestante por duas
semanas e chegou até a tomar chá de ayahuasca para ver se a dor encolhia. Achou
que seu caso realmente não tinha solução quando seu tio Otelo o pegou tremendo
e todo babado, encostado no postinho azul de um orelhão, por não ter
conseguido descobrir o telefone de um possível templo da Cultura Racional onde
teria meditado Tim Maia. “Aí você apelou” consolou o tio, abraçando-o enquanto
tentava não rir.
Mas até a
vida queria ajudar Orlando a ser feliz. No dia seguinte, no caminho para o
delicioso Tabelião de Notas onde labutava, esbarrou os dois olhos vermelhos num
desses jornais populares, era um anúncio pequeno, que dizia “Resolva seu problema e seja feliz. Conte
com a Irmandade Agnóstica Terapêutica”.
Nunca tinha
ouvido falar de uma Irmandade Terapêutica. Era estranhamente interessante.
Resolveu ligar. Não tinha nada a perder, Orlando já estava atolado em suas
fezes mentais. De acordo com a atendente do lugar, o único profissional da
Irmandade com agenda ainda disponível era um tal de Dr. Lao, com seu inovador Médoto
Frútico.
“Método Frútico?”
Orlando não tinha preconceitos metodológicos ou religiosos, apesar de achar
todas as terapias e filosofias contestáveis e até bizarras em algum nível. Por
exemplo, Freud era um rapaz estranho, onde já se viu um sujeito lançar uma teoria na
qual a primeira mulher que todo homem quer comer é a própria mãe? Outro
exemplo, os hinduístas acreditam que as vacas, aqueles ruminantes bestas, com olhos
de peixe morto, sem graça, são sagrados.
Mas e os grilos? E os saltitantes e graciosos esquilos, e os tucanos coloridos da Mata Atlântica? Se uma
vaca pode ser considerada quase uma deusa numa religião, não há nada demais esse tal
“Método Frútico” basear-se na utilização de frutas para o tratamento do
paciente, concordou internamente. Mesmo assim,
depois do episódio do orelhão, preferiu poupar-se de outra humilhação
espiritual e partiu apressado.
Foi tomar o
cafezinho da tarde sozinho, imaginando uma sessão com Dr. Lao. Um chinês
gorducho, com um intrigante chapéu de frutas na cabeça, uma versão bigoduda de
Carmem Miranda, oferecendo-lhe uma nectarina asiática e perguntando,
completamente sério, coisas do passado, sobre os traumas da relação com a família. Aquilo era surreal demais, até para ele.
Até que
lembrou ter recentemente lido numa revista feminina uma matéria falando como a alimentação
pode influenciar o humor. “Comidas saudáveis, pensamentos positivos! Alimentos
artificiais, pensamentos negativos!“ Ensinava a colunista, naquele tom de alegria
motivacional de uma instrutora de ginástica na água para terceira idade. Fazia
sentido, afinal.
Chegou no
consultório no horário marcado. Na recepção, muitas salinhas com portas iguais.
Segundo a recepcionista, cada sala era de um médico com um método distinto. Procurou
por qualquer rastro de fruta no ambiente, talvez um sofá em formato de papaya ou
algum material de papelaria com ilustrações de moranguinhos. Nada. Tudo era
simples, com aquela decoração sem personalidade, sem charme, feita obviamente pelo gosto
biológico de um médico.
Sem quase
nenhuma expressão no rosto, Dr. Lao surgiu de dentro de sua saleta, fazendo um
gesto contido, mas suficiente para Orlando entender que era para ele
entrar. Em silêncio e meio sem jeito, sentou num divã de couro. Se havia uma
coisa que o chinês não parecia, era charlatão. Possuía uma aura de homem sério,
de senhor Miyagi, com seu anel dourado no dedo, comprometido, e um olhar
compenetrado de quem parece estar eternamente fazendo um cálculo matemático.
Dr. Lao apenas o olhava calado, como que escaneando cada célula do seu novo
paciente.
Ao final da
sessão, Orlando estava exausto, após todos os traumas expostos, de toda
dolorosa infância aquaticamente narrada. E Dr. Lao sem emitir um ruído. Até que
finalmente, encarando firme os olhos de Orlando, lançou no tom de um veredito
inexpugnável, simplesmente: “Limão”. Depois levantou-se e abriu a porta, com o
mesmo olhar granítico.
Voltou para
casa revoltado, ardido. 150 reais para
ouvir o que um cardápio de sucos poderia ter-lhe dito. Seria melhor fazer terapia na feira, onde a
palavra limão é dita 300 vezes, e de graça. Num momentâneo acesso de raiva,
pensou em voltar lá, dar uma direita no velho e pegar o cheque dentro do seu
bolso aveludado. Até que, Zasp! Como um raio vindo das profundezas dos seus
ossos, Orlando teve uma fulminante realização. A raiva que sempre sentia, o
amargor que tanto o machucava e ardia, aquela conhecida sensação ácida no
estômago, claro! Era ardida, ácida como limão! Limão! Era isso! Dr. Lao, com sua
sensibilidade vitaminada, tinha encontrado o ponto da questão. Orlando então aceitou sua
missão de tentar ultrapassar a barreira do amargor contra o mundo para
tornar-se mais doce, amigável, menos franzido. Tudo fazia sentido agora e
Orlando pela primeira vez na vida,
sentiu vontade de assobiar. Mas a reprimiu.
Tinha
descarregado alguns quilos mentais de suas costas, arriscava pelo menos uma vez
por semana a soltar um cumprimento, um “olá”, um “bom dia” para os companheiros
de bancada. Mas em pouco tempo, o caldo do limão acabou e na semana seguinte,
Orlando reapareceu no consultório do Dr. Lao.
Bravamente, vasculhou todos os cantos de sua alma, falou embargado por uma hora até
que, novamente, com a distinção de um rei
da disnastia Han, sem desperdiçar palavras, Dr. Lao proferiu: “banana”.
Entrou
correndo em casa, bateu a porta do quarto e pôs-se a refletir sobre o que uma
banana poderia lhe ensinar sobre a sua personalidade. Seria ele macio? Torto?
Seria ele um banana? Ponderou, Dr. Lao jamais faria essa comparação
superficial, com certeza a escolha da
fruta trazia alguma razão, algo que deveria estar escondido nas camadas mais
profundas do seu ser. Ao pensar na
palavra “camadas”, Zasp! Mais uma vez, numa explosão psíquica, seus neurônios
dilataram e revelaram: claro! A banana tem cascas grossas, assim como Orlando,
que se protegia do mundo, evitando contatos desnecessários, vivia
hermeticamente enclausurado em seu mundo obscuro, negativo. Sua tarefa era se
abrir para os outros, interagir, viver a possibilidade do novo, do positivo, nas
relações com as pessoas e com o planeta. Tudo estava claro, e dessa vez, Orlando
assobiou.
E assim
foi, semana após semana, fruta após fruta, melancia, romã, abacaxi, goiaba,
mexerica, fruta-do-conde, morango, mamão, pêssego e até um inesperado açaí.
Nesse ponto, Orlando era já outro homem, menos sisudo, chegou inclusive a
contar uma piada no escritório, mas era ruim, e ninguém riu.
Até que numa sessão qualquer Orlando não
entendeu a mensagem das profundezas sábias de Dr Lao: “tomate”. Tomate é
fruta ou verdura? Incrivelmente, Orlando não se lembrava. Mas se o método de
Dr. Lao era Frútico, tomate não poderia ser uma verdura, muito menos uma erva,
ou uma raiz, pensou. Mesmo assim, o nó já estava dado em sua mente oscilante. O
tomate é uma verdura disfarçada de fruta, então seria possível até a natureza
ter um lado hipócrita? Matutava, já perdido, inquieto, recaído. No dia seguinte,
ligou ofegante, em estado de pânico para Dr. Lao para confirmar se tomate era
mesmo o que ele quis dizer. Mas Dr. Lao estava fora.
Na semana
seguinte, tenso, estressado como um touro numa arena espanhola, os poros da
pele numa ebulição incandescente de suor, precisava urgente receber um novo veredito,
de qualquer fruta que fosse, até jaca serviria, para acalmar sua respiração. Muito
educadamente, a secretária da Irmandade disse-lhe que suas sessões com Dr. Lao
haviam chegado ao fim e que agora sua terapia deveria continuar com outro
médico, o Dr. Átila, com seu inovador Método Prismático.
Orlando
protestou. Em vão. Era aquilo ou nada. Dr. Átila tinha pinta de um homem muito
polido, dono de um fino bigode, como que inspirado num renascentista francês. Ainda
tenso, Orlando sentou-se na poltrona e abriu seu coração, seu museu de dores,
todos os lixos que habitavam as diversas dimensões do seu espectro, contou
desde o trauma da mãe alcoólatra ao pai que lhe dava surras tysonianas. Dr.
Átila apenas ouvia, atento, como uma coruja de jaleco.
Ao final da
sessão, não disse nada. Orlando fitava-o, aguardando um sinal, um gesto, uma
resposta. Com a voz leve, tranquila, disse: “Interessante, interessante.
Azul-ardósia, com detalhes alaranjados nas pontas”.
Aliviado, Orlando
levantou e foi embora. Havia uma faísca de luz no fim do túnel.