Eunice sentiu
em cada vértebra da espinha que algo estava errado quando o telefone tocou. Largou
a louça a meio brilho e com as mãos molhadas, repletas de espuma, atendeu.
Fechou os olhos como se o aparelho fosse lhe dar um murro na orelha. E deu. Era um funcionário da biblioteca avisando que o Augusto, seu marido, tinha passado muito mal e
que acabou sendo encaminhado pro hospital.
Augusto tinha
o coração fraco. Nos últimos tempos, depois da aposentadoria como executivo de
uma fábrica sachês para molhos, entrou em depressão, engordou, começou a fumar
cachimbo e vira e mexe lá ia ele andar de ambulância. Dessa vez a encrenca era
das grandes, Eunice tinha sensibilidade para essas coisas.
Entrou aflita
na recepção do Pronto-Socorro na velocidade possível de um salto alto. Ao dizer
o nome completo do marido, a mocinha peituda fez uma cara de espanto que não
cabia naquele pedido tão óbvio, e pediu que ela esperasse um momento. Eunice aguardou,
tentando decifrar cada palavra da atendente que, com o semblante rígido, baixou
o volume da voz como se confessasse ser uma pedófila para uma professora da
pré-escola. Eunice pescou apenas “a esposa chegou” e “quarto cinco zero dois.”
“O Dr. Carlos já está descendo para atender a
senhora” balbuciou a recepcionista, disfarçando
o terror em seus olhos. Aquilo era estranho demais, onde já se viu um médico
descer na recepção? Sem querer esperar, Eunice correu para o elevador quase
como uma fugitiva e apertou freneticamente o botão do quinto andar. Quando a porta se abriu,
Dr. Sinval já esperava por ela, uma figura apavorada, o rosto mais branco que o
jaleco.
O caso do
Augusto era, digamos, bem raro, ou melhor, único, ou melhor, jamais visto em
toda história da medicina, confessara o doutor em seu discurso muito técnico,
mas trêmulo. O marido estava vivo, porém seria necessário ainda fazerem alguns
exames para ter certeza do que acontecera. Eunice deveria voltar para casa e
descansar, até que eles pudessem entender o que havia acontecido. “Eu quero ver
meu marido é agora!”, protestou.
Ao chegarem
na entrada do quarto, Dr. Sinval pulou na frente da porta, bloqueando a passagem. Eunice ameaçou berrar. Pelo corredor, cinco
seguranças caminhavam ligeiros na direção dela.
Sem pensar,
meteu um chute logo abaixo da maçaneta e a porta escancarou todo o quarto. Passou
pelo doutor e viu, sem ar, aquela imagem insólita, perturbadora uma cena que
ela jamais iria esquecer até mesmo na próximas encarnações: parcialmente coberta
pelo lençol azul do hospital, repousando em cima da cama, apenas uma enorme
torta de maçã, ainda viva, toda entubada, o som do monitor cardíaco
apitando constante, sugerindo uma falsa sensação de que estava tudo bem.
“Uma torta?”,
suspirou Eunice logo antes de ir ao chão, desfalecida. Até hoje, nenhum médico no
mundo conseguiu explicar o que aconteceu com Augusto.
Oi estou comentando aqui, tá. Apesar de que você NUNCA comentou no meu blog. Nem nunca entrou no meu blog... hmpf
ResponderExcluirEba! Mas eu sou seu seguidor! Já vi várias vezes seu brog!!!
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