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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

15 de novembro. Sacuda seu lenço e vamos todos chorar.




Eles vêm em todos os formatos, baixinhos, gordinhos, carecas, altos, magrelos, envelhecidos, juvenis, uns tem a cara do demo, outros sorriem como anjos, tem os mal vestidos e os que usam Zegna para se aproximar do povo.

Falam alto, são imponentes, parecem homens de respeito, mas ao fim das sessões, descem de seus púlpitos honrados para cochichar como criancinhas marotas seus esquemas de milhões. Uns dominam a retórica política com a desenvoltura estudada, outros aparecem lá sem qualquer estudo.
Eticamente, é um time coeso, a maioria tem o mesmo pensamento embotado, transviado, travestido de uma inteligência curta, oportunista, sorrateira, imediatista. São cegos para suas funções, carentes de ideologia e tem o senso de justiça vesgo, não percebem como seu egoísmo gatuno transformou o Brasil num acampamento, num amontoado tropical asfaltado.

Para eles não existe o conceito de nação, de união, são verdadeiros apátridas, não gastam suor para fazer do Brasil um Estado rico por igual, um lugar justo, moderno, planejado, são cupins vestidos de abelhas, que recebem para devorar o próprio meio em que vivem.

Trazem ainda no sangue o gene extrativista português, o gene da burrice, que tão bem os ensinou a drenar o próprio ouro até entupir seus bolsos de fundos falsos e esvaziar o país de credibilidade e auto-estima. Gargalham, cantam, sambam, enquanto o povo joga suas minguadas moedas para eles continuarem seu show de barbaridades.

Ainda não perceberam, coitados, que pensar para o coletivo, deixando o rio do dinheiro público seguir seu curso natural também vai beneficiar suas barrigas de champagne e camarão de vez em quando.  Sua curta imaginação não dá conta de vislumbrar um Brasil possível, onde os professores são bem pagos, onde as crianças realmente aprendem nas escolas, onde os hospitais funcionam sem filas, um país livre de favelas, de injustiças brutais, livre dessa guerra urbana, do medo, das janelas do carro fechadas no verão, um lugar onde no breu dos becos não brota mais a violência, mas floresce a cultura, a arte, o talento.

Infelizmente, no Brasil a palavra “político” está diretamente associada a palavra “corrupção”, assim como goiabada e queijo, arroz e feijão, sol e céu. Mas não deveria ser assim. Na Alemanha com certeza não é, nem na Suécia ou na Holanda, nem em tantas outras fronteiras. O Brasil só vai mudar quando ousar ser uma Alemanha, uma Suécia, uma Holanda. E por que não? Somos todos homo sapiens, da mesma espécie e com a mesma capacidade cerebral. Podemos, em pequenas ações, ser cidadãos melhores, votando melhor, direcionando nossa reclamação para os órgãos responsáveis e dando exemplo para quem ainda não enxerga que tem responsabilidade na construção do país que quer viver. Temos que mudar já, porque nossos filhos serão os honestos ou desonestos no comando no Brasil do futuro.

Que os raros bons políticos brasileiros continuem bons, e que os maus  aprendam a amar seu país além de beijinhos e abraços de palanque, além de seus discursos calorosamente hipócritas. Que a palavra “político” seja enfim associada à ética, à idoneidade, à justiça, à seriedade, à competência e principalmente: à ordem e à progresso. Vai Brasil!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A inusitada transformação de Augusto


Eunice sentiu em cada vértebra da espinha que algo estava errado quando o telefone tocou. Largou a louça a meio brilho e com as mãos molhadas, repletas de espuma, atendeu. Fechou os olhos como se o aparelho fosse lhe dar um murro na orelha.  E deu. Era um funcionário da biblioteca avisando que o Augusto, seu marido,  tinha passado muito mal e que acabou sendo encaminhado pro hospital.
Augusto tinha o coração fraco. Nos últimos tempos, depois da aposentadoria como executivo de uma fábrica sachês para molhos, entrou em depressão, engordou, começou a fumar cachimbo e vira e mexe lá ia ele andar de ambulância. Dessa vez a encrenca era das grandes, Eunice tinha sensibilidade para essas coisas.
Entrou aflita na recepção do Pronto-Socorro na velocidade possível de um salto alto. Ao dizer o nome completo do marido, a mocinha peituda fez uma cara de espanto que não cabia naquele pedido tão óbvio, e pediu que ela esperasse um momento. Eunice aguardou, tentando decifrar cada palavra da atendente que, com o semblante rígido, baixou o volume da voz como se confessasse ser uma pedófila para uma professora da pré-escola. Eunice pescou apenas “a esposa chegou” e “quarto cinco zero dois.”
 “O Dr. Carlos já está descendo para atender a senhora” balbuciou a recepcionista,  disfarçando o terror em seus olhos. Aquilo era estranho demais, onde já se viu um médico descer na recepção? Sem querer esperar, Eunice correu para o elevador quase como uma fugitiva e apertou freneticamente o botão do quinto andar. Quando a porta se abriu, Dr. Sinval já esperava por ela, uma figura apavorada, o rosto mais branco que o jaleco.
O caso do Augusto era, digamos, bem raro, ou melhor, único, ou melhor, jamais visto em toda história da medicina, confessara o doutor em seu discurso muito técnico, mas trêmulo. O marido estava vivo, porém seria necessário ainda fazerem alguns exames para ter certeza do que acontecera. Eunice deveria voltar para casa e descansar, até que eles pudessem entender o que havia acontecido. “Eu quero ver meu marido é agora!”, protestou.
Ao chegarem na entrada do quarto, Dr. Sinval pulou na frente da porta, bloqueando a passagem.  Eunice ameaçou berrar. Pelo corredor, cinco seguranças caminhavam ligeiros na direção dela.
Sem pensar, meteu um chute logo abaixo da maçaneta e a porta escancarou todo o quarto. Passou pelo doutor e viu, sem ar, aquela imagem insólita, perturbadora uma cena que ela jamais iria esquecer até mesmo na próximas encarnações: parcialmente coberta pelo lençol azul do hospital, repousando em cima da cama, apenas uma enorme torta de maçã, ainda viva, toda entubada, o som do monitor cardíaco apitando constante, sugerindo uma falsa sensação de que estava tudo bem.
“Uma torta?”, suspirou Eunice logo antes de ir ao chão, desfalecida. Até hoje, nenhum médico no mundo conseguiu explicar o que aconteceu com Augusto.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As 1001 terapias de Orlando



Convenhamos, o ser humano é uma racinha que se fode. Desde o ator mais bem pago de Hollywood, ao quase transparente Somaliano com suas costelas que mais parecem ondas sonoras do grito da fome. Todos, em níveis diferentes, comemos o pão que o diabo cagou, em alguns momentos da vida.

Com Orlando não era diferente. Tinha um aura pesada de um sofredor profissional. Entristecia quando ganhava e chorava quando perdia. Sua mente traquina o enrolava de tal forma que conseguia ficar infeliz até quando era para dar cambalhotas de alegria. Como da vez que ganhou uma promoção de uma marca de margarina para passar uma final de semana no Caribe com a mulher. Tudo pago. Passou o tempo todo reclamando da areia branca fervendo a sola dos pés, dos mosquitos canibais e dos pratos exóticos, que, em sua cabeça, eram apenas coquetéis horizontais. Apesar do jeito irritadiço, Orlando sabia que precisava mudar para diluir o sofrimento.
Costumava dizer que só a pintura de Tolouse-Lautrec, “A mulher sentada no divã”, tinha mais tempo que ele de terapia.  Já tinha tentado a Freudiana, Junguiana, Lacaniana, todas as “anas”, lançou-se na Cabala, dançou Umbanda, meditou com mestres Budistas, Hinduístas, Xintoístas, confessou-se com padre católico, benzeu-se na água evangélica, foi protestante por duas semanas e chegou até a tomar chá de ayahuasca para ver se a dor encolhia. Achou que seu caso realmente não tinha solução quando seu tio Otelo o pegou tremendo e todo babado, encostado no postinho azul de um orelhão, por não ter conseguido descobrir o telefone de um possível templo da Cultura Racional onde teria meditado Tim Maia. “Aí você apelou” consolou o tio, abraçando-o enquanto tentava não rir. 
Mas até a vida queria ajudar Orlando a ser feliz. No dia seguinte, no caminho para o delicioso Tabelião de Notas onde labutava, esbarrou os dois olhos vermelhos num desses jornais populares, era um anúncio pequeno, que dizia “Resolva seu problema e seja feliz. Conte com a Irmandade Agnóstica Terapêutica”.
Nunca tinha ouvido falar de uma Irmandade Terapêutica. Era estranhamente interessante. Resolveu ligar. Não tinha nada a perder, Orlando já estava atolado em suas fezes mentais. De acordo com a atendente do lugar, o único profissional da Irmandade com agenda ainda disponível era um tal de Dr. Lao, com seu inovador Médoto Frútico. 
“Método Frútico?” Orlando não tinha preconceitos metodológicos ou religiosos, apesar de achar todas as terapias e filosofias contestáveis e até bizarras em algum nível. Por exemplo, Freud era um rapaz estranho, onde já se viu um sujeito lançar uma teoria na qual a primeira mulher que todo homem quer comer é a própria mãe? Outro exemplo, os hinduístas acreditam que as vacas, aqueles ruminantes bestas, com olhos de peixe morto, sem graça, são sagrados. Mas e os grilos? E os saltitantes e graciosos esquilos,  e os tucanos coloridos da Mata Atlântica? Se uma vaca pode ser considerada quase uma deusa numa religião, não há nada demais esse tal “Método Frútico” basear-se na utilização de frutas para o tratamento do paciente, concordou internamente. Mesmo assim, depois do episódio do orelhão, preferiu poupar-se de outra humilhação espiritual e partiu apressado. 
Foi tomar o cafezinho da tarde sozinho, imaginando uma sessão com Dr. Lao. Um chinês gorducho, com um intrigante chapéu de frutas na cabeça, uma versão bigoduda de Carmem Miranda, oferecendo-lhe uma nectarina asiática e perguntando, completamente sério, coisas do passado, sobre os traumas da relação com a família. Aquilo era surreal demais, até para ele. 
Até que lembrou ter recentemente lido numa revista feminina uma matéria falando como a alimentação pode influenciar o humor. “Comidas saudáveis, pensamentos positivos! Alimentos artificiais, pensamentos negativos!“ Ensinava a colunista, naquele tom de alegria motivacional de uma instrutora de ginástica na água para terceira idade. Fazia sentido, afinal.
Chegou no consultório no horário marcado. Na recepção, muitas salinhas com portas iguais. Segundo a recepcionista, cada sala era de um médico com um método distinto. Procurou por qualquer rastro de fruta no ambiente, talvez um sofá em formato de papaya ou algum material de papelaria com ilustrações de moranguinhos. Nada. Tudo era simples, com aquela decoração sem personalidade,  sem charme, feita obviamente pelo gosto biológico de um médico. 
Sem quase nenhuma expressão no rosto, Dr. Lao surgiu de dentro de sua saleta, fazendo um gesto contido, mas suficiente para Orlando entender que era para ele entrar. Em silêncio e meio sem jeito, sentou num divã de couro. Se havia uma coisa que o chinês não parecia, era charlatão. Possuía uma aura de homem sério, de senhor Miyagi, com seu anel dourado no dedo, comprometido, e um olhar compenetrado de quem parece estar eternamente fazendo um cálculo matemático. Dr. Lao apenas o olhava calado, como que escaneando cada célula do seu novo paciente. 
Ao final da sessão, Orlando estava exausto, após todos os traumas expostos, de toda dolorosa infância aquaticamente narrada. E Dr. Lao sem emitir um ruído. Até que finalmente, encarando firme os olhos de Orlando, lançou no tom de um veredito inexpugnável, simplesmente: “Limão”. Depois levantou-se e abriu a porta, com o mesmo olhar granítico.
Voltou para casa revoltado, ardido.  150 reais para ouvir o que um cardápio de sucos poderia ter-lhe dito.  Seria melhor fazer terapia na feira, onde a palavra limão é dita 300 vezes, e de graça. Num momentâneo acesso de raiva, pensou em voltar lá, dar uma direita no velho e pegar o cheque dentro do seu bolso aveludado. Até que, Zasp! Como um raio vindo das profundezas dos seus ossos, Orlando teve uma fulminante realização. A raiva que sempre sentia, o amargor que tanto o machucava e ardia, aquela conhecida sensação ácida no estômago, claro! Era ardida, ácida como limão! Limão! Era isso! Dr. Lao, com sua sensibilidade vitaminada, tinha encontrado o ponto da questão. Orlando então aceitou sua missão de tentar ultrapassar a barreira do amargor contra o mundo para tornar-se mais doce, amigável, menos franzido. Tudo fazia sentido agora e Orlando pela primeira vez na  vida, sentiu vontade de assobiar. Mas a reprimiu.
Tinha descarregado alguns quilos mentais de suas costas, arriscava pelo menos uma vez por semana a soltar um cumprimento, um “olá”, um “bom dia” para os companheiros de bancada. Mas em pouco tempo, o caldo do limão acabou e na semana seguinte, Orlando reapareceu no consultório do Dr. Lao.
Bravamente, vasculhou todos os cantos de sua alma, falou embargado por uma hora até que, novamente,  com a distinção de um rei da disnastia Han, sem desperdiçar palavras, Dr. Lao proferiu: “banana”.
Entrou correndo em casa, bateu a porta do quarto e pôs-se a refletir sobre o que uma banana poderia lhe ensinar sobre a sua personalidade. Seria ele macio? Torto? Seria ele um banana? Ponderou, Dr. Lao jamais faria essa comparação superficial, com certeza a escolha da fruta trazia alguma razão, algo que deveria estar escondido nas camadas mais profundas do seu ser.  Ao pensar na palavra “camadas”, Zasp! Mais uma vez, numa explosão psíquica, seus neurônios dilataram e revelaram: claro! A banana tem cascas grossas, assim como Orlando, que se protegia do mundo, evitando contatos desnecessários, vivia hermeticamente enclausurado em seu mundo obscuro, negativo. Sua tarefa era se abrir para os outros, interagir, viver a possibilidade do novo, do positivo, nas relações com as pessoas e com o planeta. Tudo estava claro, e dessa vez, Orlando assobiou.
E assim foi, semana após semana, fruta após fruta, melancia, romã, abacaxi, goiaba, mexerica, fruta-do-conde, morango, mamão, pêssego e até um inesperado açaí. Nesse ponto, Orlando era já outro homem, menos sisudo, chegou inclusive a contar uma piada no escritório, mas era ruim, e ninguém riu.
 Até que numa sessão qualquer Orlando não entendeu a mensagem das profundezas sábias de Dr Lao: “tomate”. Tomate é fruta ou verdura? Incrivelmente, Orlando não se lembrava. Mas se o método de Dr. Lao era Frútico, tomate não poderia ser uma verdura, muito menos uma erva, ou uma raiz, pensou. Mesmo assim, o nó já estava dado em sua mente oscilante. O tomate é uma verdura disfarçada de fruta, então seria possível até a natureza ter um lado hipócrita? Matutava, já perdido, inquieto, recaído. No dia seguinte, ligou ofegante, em estado de pânico para Dr. Lao para confirmar se tomate era mesmo o que ele quis dizer. Mas Dr. Lao estava fora. 
Na semana seguinte, tenso, estressado como um touro numa arena espanhola, os poros da pele numa ebulição incandescente de suor, precisava urgente receber um novo veredito, de qualquer fruta que fosse, até jaca serviria, para acalmar sua respiração. Muito educadamente, a secretária da Irmandade disse-lhe que suas sessões com Dr. Lao haviam chegado ao fim e que agora sua terapia deveria continuar com outro médico, o Dr. Átila, com seu inovador Método Prismático. 
Orlando protestou. Em vão. Era aquilo ou nada. Dr. Átila tinha pinta de um homem muito polido, dono de um fino bigode, como que inspirado num renascentista francês. Ainda tenso, Orlando sentou-se na poltrona e abriu seu coração, seu museu de dores, todos os lixos que habitavam as diversas dimensões do seu espectro, contou desde o trauma da mãe alcoólatra ao pai que lhe dava surras tysonianas. Dr. Átila apenas ouvia, atento, como uma coruja de jaleco.
Ao final da sessão, não disse nada. Orlando fitava-o, aguardando um sinal, um gesto, uma resposta. Com a voz leve, tranquila, disse: “Interessante, interessante. Azul-ardósia, com detalhes alaranjados nas pontas”.
Aliviado, Orlando levantou e foi embora. Havia uma faísca de luz no fim do túnel.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A estranha mini história de Jean Luc.



Jean Luc tinha apenas 17 anos quando foi condenado à forca, em Lille, ao final de 1756. Nem ele, nem o carrasco, Esteban, nunca souberam o por quê.

No dia marcado, seu curioso último pedido foi concedido: uma flauta e a metade de um limão.
Quase sem jeito, o secretário de segurança da cidade subiu os degraus de madeira da forca, trazendo em cima de uma almofada cor vinho Cabernet Savignon safra de 1754, os dois objetos tão distintos.
Sem hesitação, Jean Luc pôs-se a tocar o instrumento, os lábios secos, uma melodia simples, infantil, os olhos bem cerrados como se quisesse evitar a saída das lágrimas. Ao terminar, pegou o limão e mordeu-o com raiva, sugando toda alma ácida da fruta. Tampou os ouvidos para poupar-se do último e terrível som de sua vida.

Com seu impiedoso machado, Esteban cortou a corda e Jean Luc foi ao fim. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Mais Bobsled, menos futebol.


Se você ama futebol, feche a página. Você não vai sentir uma química com este texto. Ou melhor, você vai odiá-lo. Este lamento é para dividir apenas com vocês dois ou três, se tanto, que estão meio de saco cheio dessa paixão nacional. 

Abro o Caderno de Esportes do jornal e vejo uma foto de dois homens suados se abraçando. Logo abaixo dela, outra imagem de igual choque: quatro homens coladinhos, sorrisos de orelha a orelha, fazendo uma dancinha ensaiada.  Na página ao lado, a mesma paisagem: um homem correndo atrás de outro homem. Já ligeiramente tenso, olho o canto esquerdo da outra página e novamente: homens oferecendo suas camisetinhas molhadas a outros homens. O que poderia ser praticamente um ensaio anual da G-Magazine, são apenas os resultados do final de semana do Brasileirão. 

Apesar da comparação, não acho futebol uma viadagem. E mesmo se fosse, não cabe a mim "apitar", sobre a opção sexual de cada um. Mas como você pode perceber, tenho tanto amor pelo o que acontece nos gramados quanto o Sócrates tinha por chá de erva-doce. Possuo tanta afinidade com a bola quanto um esquimó.

Existem algumas razões para eu ter desenvolvido essa peculiar antipatia: hoje as pessoas chegam até a se matar só porque torcem para equipes diferentes. Apesar de ser contra qualquer tipo de violência, compreendo mais o cara que mata o sujeito que comeu a mulher dele, do que pelo cidadão que mete a faca no pescoço do outro porque ele torce pro time azul e o outro pro verde. Não faz sentido. É de uma bestialidade zoológica. Ou aqueles torcedores xiitas que tratam a revista Placar como se ela fosse o Alcorão, e pregam como se estivessem levando a palavra de Alá. E se você não concordar, eles estão dispostas a morrer pela camisa, como verdadeiros mártires da imbecilidade.

Claro que a violência não está restrita ao futebol, no sangue humano fervem as rivalidades mais triviais, seja no futebol no Brasil, no cricket na Índia, ou no Campeonato De Quem Come Mais Cachorros-Quentes de Nova York. 

É que não é só isso. Uma coisa que não consigo suportar são os seres que urram pela janela do prédio com fervor de quem está proclamando a independência: CHUPA BAMBI! O grito desesperado do sujeito em agonia invade a minha sala com os dois pés, joga longe a tranquilidade do meu domingo para informar-me “chupa bambi”? Sério mesmo? Pelo tom do grunhido do animal você primeiro chega a pensar que o bebê do cara espatifou pela janela, ou que ele ceifou a mão inteira ao cortar cebolinha. 

Se eu posso ser abruptamente incomodado com um assunto que nada me interessa, também tenho o direito de atrapalhar o silêncio alheio com qualquer coisa que me dê vontade. No próximo domingo vou gritar pela janela, oxigênio no limite da minha capacidade torácica: “Chupa Pereira!!! Cheque mate, Pereira! Comi sua rainha !!” É isso que vou fazer. Ainda bem que não tenho arma em casa, senão já teria uma ficha criminal mais extensa do que a do Charles Manson. 

Outra razão pela qual me importo cada vez menos com essa chutação de bola é porque a seção de Esportes dos jornais hoje é como uma rádio que só toca "Stairway to Heaven". Eu quero saber com mais profundidade o que acontece no tênis, no basquete, no vôlei, quero saber também o que rola nos esportes menos populares pelo mundo, como na canoagem, na esgrima chinesa ou qualquer informação sobre o campeonato nacional de Curling na Rússia. Tudo é melhor do que ser obrigado a rever, de novo, o penteado semanal do Neymar, ou saber quem ele está comendo. 

Sofro também em mesas de bar. O assunto geralmente é mulher, futebol, e trabalho. Poderia ser: mulher, salto em altura e trabalho, ou mulher, luta greco romana e trabalho. Já seria um avanço. Quando estou com amigos e o tema futebol entra em campo, recolho-me automaticamente dentro da minha imaginação, num estado semi-autista, vou pra Tunísia, voo de balão, observo as mesquitas lá embaixo, aí quando percebo que o assunto voltou a ser qualquer outra coisa que seja, sei lá, tijolos baianos do século 19, pouso meu balão e entro na conversa. Sou um náufrago, um ser isolado, sem eco, desprezado, sou o garçom da banana frita do Fogo de Chão.

É, em 2014 eu tô na merda.