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domingo, 4 de novembro de 2012
Mais Bobsled, menos futebol.
Se você ama futebol, feche a página. Você não vai sentir uma química com este texto. Ou melhor, você vai odiá-lo. Este lamento é para dividir apenas com vocês dois ou três, se tanto, que estão meio de saco cheio dessa paixão nacional.
Abro o Caderno de Esportes do jornal e vejo uma foto de dois homens suados se abraçando. Logo abaixo dela, outra imagem de igual choque: quatro homens coladinhos, sorrisos de orelha a orelha, fazendo uma dancinha ensaiada. Na página ao lado, a mesma paisagem: um homem correndo atrás de outro homem. Já ligeiramente tenso, olho o canto esquerdo da outra página e novamente: homens oferecendo suas camisetinhas molhadas a outros homens. O que poderia ser praticamente um ensaio anual da G-Magazine, são apenas os resultados do final de semana do Brasileirão.
Apesar da comparação, não acho futebol uma viadagem. E mesmo se fosse, não cabe a mim "apitar", sobre a opção sexual de cada um. Mas como você pode perceber, tenho tanto amor pelo o que acontece nos gramados quanto o Sócrates tinha por chá de erva-doce. Possuo tanta afinidade com a bola quanto um esquimó.
Existem algumas razões para eu ter desenvolvido essa peculiar antipatia: hoje as pessoas chegam até a se matar só porque torcem para equipes diferentes. Apesar de ser contra qualquer tipo de violência, compreendo mais o cara que mata o sujeito que comeu a mulher dele, do que pelo cidadão que mete a faca no pescoço do outro porque ele torce pro time azul e o outro pro verde. Não faz sentido. É de uma bestialidade zoológica. Ou aqueles torcedores xiitas que tratam a revista Placar como se ela fosse o Alcorão, e pregam como se estivessem levando a palavra de Alá. E se você não concordar, eles estão dispostas a morrer pela camisa, como verdadeiros mártires da imbecilidade.
Claro que a violência não está restrita ao futebol, no sangue humano fervem as rivalidades mais triviais, seja no futebol no Brasil, no cricket na Índia, ou no Campeonato De Quem Come Mais Cachorros-Quentes de Nova York.
É que não é só isso. Uma coisa que não consigo suportar são os seres que urram pela janela do prédio com fervor de quem está proclamando a independência: CHUPA BAMBI! O grito desesperado do sujeito em agonia invade a minha sala com os dois pés, joga longe a tranquilidade do meu domingo para informar-me “chupa bambi”? Sério mesmo? Pelo tom do grunhido do animal você primeiro chega a pensar que o bebê do cara espatifou pela janela, ou que ele ceifou a mão inteira ao cortar cebolinha.
Se eu posso ser abruptamente incomodado com um assunto que nada me interessa, também tenho o direito de atrapalhar o silêncio alheio com qualquer coisa que me dê vontade. No próximo domingo vou gritar pela janela, oxigênio no limite da minha capacidade torácica: “Chupa Pereira!!! Cheque mate, Pereira! Comi sua rainha !!” É isso que vou fazer. Ainda bem que não tenho arma em casa, senão já teria uma ficha criminal mais extensa do que a do Charles Manson.
Outra razão pela qual me importo cada vez menos com essa chutação de bola é porque a seção de Esportes dos jornais hoje é como uma rádio que só toca "Stairway to Heaven". Eu quero saber com mais profundidade o que acontece no tênis, no basquete, no vôlei, quero saber também o que rola nos esportes menos populares pelo mundo, como na canoagem, na esgrima chinesa ou qualquer informação sobre o campeonato nacional de Curling na Rússia. Tudo é melhor do que ser obrigado a rever, de novo, o penteado semanal do Neymar, ou saber quem ele está comendo.
Sofro também em mesas de bar. O assunto geralmente é mulher, futebol, e trabalho. Poderia ser: mulher, salto em altura e trabalho, ou mulher, luta greco romana e trabalho. Já seria um avanço. Quando estou com amigos e o tema futebol entra em campo, recolho-me automaticamente dentro da minha imaginação, num estado semi-autista, vou pra Tunísia, voo de balão, observo as mesquitas lá embaixo, aí quando percebo que o assunto voltou a ser qualquer outra coisa que seja, sei lá, tijolos baianos do século 19, pouso meu balão e entro na conversa. Sou um náufrago, um ser isolado, sem eco, desprezado, sou o garçom da banana frita do Fogo de Chão.
É, em 2014 eu tô na merda.
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O da banana, manda vir o garçon da Picanha!
ResponderExcluirok. Confesso que ja fui muito mais troponina+miosina... Mas hoje em dia, depois de babar no jogo do Federer ontem...acho que ando voando de Balao para a Tunisia, nao importa a modalidade...
ResponderExcluirhahahahah, o jogo do feder foi sensacional Cyn!!
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